quinta-feira, 21 de abril de 2011

Olhos


Ao despertar pela manhã um menino tomado pela ausência de emoção encontrou em sua vaga mente um motivo para abrir os olhos. As certezas mutáveis de uma existência frágil e dependente eram atordoantes para uma cabeça tão pequena. O que motivava a permanência eram as ordens recebidas. Na mesma hora em que aqueles olhos se abriam outro par, não se sabe ao certo quão distante daquele quarto ainda escuro, se fechava. A busca incessante pelo prazer amargo de estar junto de uma máquina capaz de proporcionar êxtase em forma de números deixava aquele par de olhos cansado. O encontro entre duas pessoas tão distantes seria catastrófico e utopicamente perfeito. Enquanto olhos prematuros se abriam a mais um dia, olhos cansados se fechavam em busca de um belo dia de sono.

Mentiras


Lembrei em meio às lágrimas que nunca estive tão perto de nada. Estralei os dedos e vi o quão perecível é estar aqui, nesse monte de sujeira acumulada. Saudosismo nunca foi um forte, nem uma característica, mas gosto de lembrar. Lembrar o tempo em tudo que era preciso pra estar com um sorriso no rosto era um pequeno objeto, feito de qualquer material. Hoje em dia os sorrisos precisam de espelhos, gradativamente mais raros de ser achados verdadeiramente. As mentiras tomam conta do que há muito era simples. Lembrei-me de quando podia caminhar por aí, sem ter medo do que ouvir quando chegar. Lembrei também do quanto eu era desnecessário e como comecei a mentir. Acho que voltarei a fazê-lo uma vez mais...

terça-feira, 19 de abril de 2011

Início


Não sou eu quem falo. A parte de mim que aqui se encontra já morreu. Se suicídio ou assassinato, realmente não sei, mas ainda continuo a falar. Lembro-me do tempo em que não havia nada além de sorrisos e choros de verdade. Não sinto mais saudades disso, talvez arrependimento. Minhas lágrimas ainda caem mesmo secas e salgadas. A dor se foi; estou anestesiado. Respiro. A procura por motivos acabou, os desejos cessaram. Apenas relato o que sonhei, vivi ou desejei. Isto está no passado (talvez inexistente) e não voltará mais...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Despertar


Hoje acordei sem saber se inventei tudo que sonhei ou se por alguma razão meus pensamentos em vão contaminaram minha vida. Acordei de olhos fechados, com o incômodo da luz se fazendo marcante e presente. Despertei de uma inconsciência doce e miserável num mundo mágico onde eu controlava tudo que acontecia – ou ao menos tentava. Voltei para onde o valor das lembranças é ínfimo e a intimidade é vergonhosa. Estou acordado, bem acordado, chamo meu nome, levanto-me, mas nada ouço. Peço socorro dentro da angústia angustiante do não coexistir pacificamente com o eu. Peço socorro, grito por ajuda, mas minha voz se cala antes de produzir sons. O que realmente importa agora é que acordei. Se estou pronto ou não para enfrentar aquilo que me dá medo é motivo para outra história. A pretensão, ou melhor, as pretensões de qualquer coisa não são meras ideias fundamentadas num abismo cerebral. Se há desejo, há busca, há vontade, há sentimento, há perda. Se há alguma coisa, sempre haverá seja lá o que for. O entendimento não precisa ser compreensível. O meu entendimento é que acabei de acordar. Não pronto pra viver, talvez tampouco para morrer. Acordei por acordar.